terça-feira, 13 de outubro de 2009

Poemas, cervejas e citação

Poema, lista, citação e um tipo que se engana

1. Poema: Umberto Saba (1883-1957)


TRIESTE

Ho attraversata tutta la cittá.

Poi ho salita un'erta,

popolosa in principio, in là deserta,

chiusa da un muricciolo:

un cantuccio in cui solo

siedo; e mi pare che dove esso termina

termini la città.



Trieste ha una scontrosa

grazia. Se piace,

è como un ragazzaccio aspro e vorace,

con gli occhi azzuri e mani troppo grandi

per regalare un fiore;

come un amore

con gelosia.

Da quest'erta ogni chiesa, ogni sua via

scopro, se mena all'ingombrata spiaggia,

o alla collina cui, sulla sassosa

cima, una casa, l'ultima, s'aggrappa.

Intorno

circola ad ogni cosa

un'aria strana, un'aria tormentosa,

l'aria natia.



La mia città che in ogni parte è viva,

ha il cantuccio a me fatto, alla mia vita

pensosa e schiva.



TRIESTE (tradução atamancada e à primeira vista deste vosso amigo)



Atravessei a cidade toda.

Depois ingressei numa pequena rua,

cheia de gente no início, ao fundo vazia,

cercada por um pequeno muro:

com um pequeno banco onde me sento;

e parece-me que onde ele termina

acaba também a cidade.



Trieste tem um encanto contraditório

É agradável

é como um pequeno rapaz áspero e voraz,

com olhos azuis e as mãos demasiado grandes

para oferecer uma flor;

como um amor

ciumento.

Desta pequena rua, descubro cada igreja, cada rua

que leva à velha praia

ou à colina, em cuja encosta acima

a última casa se agarra.

À volta

de tudo circula

um vento estranho, um vento de tormenta,

o vento pátrio.



A minha cidade que por todo o lado palpita de vida,

construiu par mim um canto, um canto para a minha vida

reflexiva e esquiva.




2. Lista: as dez melhores cervejas portuguesas

Super Bock: é como a nossa mãe: é de longe a melhor, há que mostrar respeito... (está sempre em guerra com a Sagres - ver abaixo). Atenção: confiamos nela e está acima de qualquer suspeita...
Cristal: é como a mulher do nosso amigo: (quase) nunca ninguém provou, mas não se pode negar que é bem boa...
Cintra: é igual à nossa ex-namorada. Prometeu muito, mas ficou-se. Nem todos gostam dela, mas faz o seu papel e de vez em quando lembramo-nos dela...
Coral: é como a supermodelo: nunca experimentaram, mas todos querem vir a provar... um dia.
Bohemia: é como a cunhada: é diferente e só por isso vale a pena experimentar...
Imperial: é como a mulher feia: se tiver de ser, no desespero e com uns copos em cima, também marcha...
Abadia: é igual à nossa vizinha: estamos fartos de a ver em todo o lado mas nunca experimentamos...
Topázio: é igualzinha à nossa primeira namorada: foi boa naquele tempo (que saudade!), mas nem sabemos se ainda existe...
Tagus: é igual à sogra: todos a evitam, amarga que se farta e só dá dores de cabeça...
E por fim, a Sagres: é como a nossa mulher. Já experimentamos tantas vezes. Está sempre presente. Às vezes até sabe bem, mas não tem melhorado com o tempo. Acha sempre que é a primeira. E a verdade é que é...

Cervejas com sabores a fruta, tangos, panachês e quejandos: É como a nossa amante: é doce e mata a sede, mas tem de ser só de vez em quando. De resto, prometemos, prometemos, prometemos que vamos pedi-la... mas é o pedes... fica sempre para a próxima... Da próxima é que é...
Mini: são como as 'tias' profissionais: só por vício, hábito ou para fazer companhia aos amigos... No final, sabe a pouco...
Preta: é como a nossa prima: primeiro nem pensamos nisso: um dia experimentamos e não é mau de todo, pois não?

Mas a verdade é que as melhores que já provei foram estrangeiras: uma Foster´s (australiana); uma Guiness na Escócia, e montes de Malz Beer (brasileira) no Rio de Janeiro - todos deviam experimentar um dia... Deixa um docinho tão agradável no palato. Apetece sempre outra...

3. Citação

« Uma noite dos meus quinze anos dei comigo a chorar. Não sei já qual foi o caminho que me conduziu às lágrimas, tudo vai tão longe, perdido na fita branca do passado. Só me recordo de que o pai me ouviu e se levantou. Sentou-se ao de leve na borda da minha cama, pôs-se a acariciar-me os cabelos, quis saber o que eu tinha.
- Estou só, pai. Não é mais nada. Dei porque estava só e isso pareceu-me... Que parvoíce, não é? Estou agora só! E tu então?
Tentei rir a tapar-me, já arrependida da franqueza, mas ele não colaborou e isso salvou-o da raiva que eu havia de lhe ter na manhã segiuinte. Não se riu e a sua voz, quando veio, era muito doce, quase triste.
- Também deste por isso - disse brandamente.- Também deste por isso. Há gente que vive setenta e oitenta anos, até mais, sem nunca se dar conta. Tu aos quinze... Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança. (...)
In, «Tanta Gente, Mariana», de Maria Judite de Carvalho

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